Ethanol summit 2009

Nos três primeiros dias deste mês de junho, a capital paulista vai se transformar no palco para o principal evento internacional sobre etanol - o biocombustível mais utilizado do mundo. O Ethanol Summit está em sua segunda edição e é um seminário bianual promovido pela União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), principal entidade representativa do setor. Quase 150 palestrantes do Brasil e de todos os continentes participarão de 25 painéis e seis sessões plenárias. O evento contará com a presença do presidente Lula, de José Serra, governador de São Paulo, e de Bill Clinton ex-presidente dos Estados Unidos.
Clinton criou a Fundação William J. Clinton, um dos projetos da Fundação reúne lideres globais para desenvolver e implementar soluções inovadoras para alguns dos problemas mais graves do mundo, entre eles, o aquecimento global e a geração de alimentos. Dois temas que envolvem diretamente a produção de biocombustíveis. O assunto é tão relevante, que em uma das plenárias do Ethanol Summit a discussão será: A agricultura poderá abastecer o mundo com alimento e combustível? Quem responderá a esta e outras questões é Kjell Aleklett, físico e professor do Departamento de Física, Astronomia e Sistemas Globais de Energia da Uppsala University. Aleklett participou de um estudo que avalia o total de energia oriunda da agricultura disponível para o mundo.
Enquanto o mundo apresenta dúvidas se é possível produzir alimentos e energia, pesquisadores brasileiros têm certeza de que o Brasil é um dos países com maior potencial para a produção de combustíveis a partir de biomassa. Aqui ainda há muito a ser aproveitado, pois, atualmente, o País explora menos de um terço de sua área agriculturável, o que constitui a maior fronteira para expansão agrícola do mundo, cerca de 150 milhões de hectares. Desta forma, temos a possibilidade de incorporar novas áreas à agricultura para geração de energia sem competir com a agricultura para alimentação e com impactos ambientais limitados ao socialmente aceito.
O Brasil é campeão – Frederico Durães, chefe geral da Embrapa Agroenergia, salienta que o Brasil detém a maior diversidade biológica do mundo (Floresta Amazônica, Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado), diversidade de clima e de solo, além de poder contar com água, área, sol e equipes de excelência, nas áreas de pesquisa, desenvolvimento e inovação agronômica e de processos de conversão industrial. “O mundo pede mudanças na sua matriz energética, não é mais possível ficar dependente de combustíveis fósseis. O biocombustível é uma alternativa totalmente viável, o nosso etanol de cana-de-açúcar é a melhor prova concreta sobre isso”, afirma.
Segundo Durães, o Brasil apresenta 851 milhões de hectares, dos quais de 350 a 400 milhões são considerados agricultáveis, a agricultura ocupa 65 milhões, desse total, 23,5 milhões são ocupados por soja e 8,5 milhões por cana. Da soja tira-se o óleo comestível, o farelo e ainda assim, é responsável por 80% do biodiesel produzido no País. No Brasil é consumido 40 bilhões de litros de diesel por ano, a adição de biodiesel é de 3%, então são 1,5 bilhão de litros de biodiesel, desse total 1,2 bilhão de litros é proveniente da soja. Da cana são produzidos 28,5 bilhões de litros de etanol e mais 32 milhões de toneladas de açúcar. Isso significa que não plantamos soja apenas para produzir biodiesel e nem cana só para produzir etanol, temos capacidade tranquilamente para fazer as duas coisas e vamos aumentar muito a produção, seja com o aumento de área, seja com o avanço tecnológico permitindo maior produtividade e maior eficiência industrial”, explica Durães.
A agroenergia é muito ampla – Durães observa que a agroenergia é muito ampla, a Embrapa Agroenergia, criada em 2006, desenvolve estudos na produção de etanol, biodiesel, biogás, florestas energéticas e resíduos agropecuários e florestais, mas cada um desses tópicos apresentam várias vertentes, por exemplo, no caso do etanol, existem o de cana, de grãos, celulósico...
O objetivo das pesquisas é apurar as alternativas economicamente viáveis, socialmente responsáveis e ambientalmente corretas, ou seja, que apresentem os princípios da sustentabilidade. O fundamental, alerta Durães, é o investimento e a continuidade das pesquisas, pois, vários países, apesar de aparentemente “torcerem o nariz” já estão “de olho” nos biocombustíveis como alternativa para crise do campo, diversificando mercados, melhorando a rentabilidade dos produtores de grãos, cana e outras oleaginosas; e para a crise ambiental, visando a diminuição da emissão de gases de efeito estufa.
Segundo estimativas da International Energy Agency (IEA), pode-se prever que 20% de decréscimo nas emissões desses gases, até 2030, virá por conta do aumento do uso de combustíveis renováveis, como o etanol e o biodiesel brasileiros.
O exemplo concreto do etanol – em 30 anos, o Brasil desenvolveu o maior e melhor projeto de combustível renovável do mundo, o etanol de cana-de-açúcar tem uma redução confirmada de até 90% de emissões de gases de efeito estufa em comparação com a gasolina. Hoje, mais de 90% dos veículos novos vendidos no País são com a tecnologia flex que permite abastecer com álcool ou gasolina ou os dois. Tecnologia brasileira.
A produção de etanol da cana também é uma tecnologia brasileira, mas nos últimos tempos, depois que os holofotes se voltaram para o etanol, começou-se a falar que essa tecnologia é ultrapassada, o negócio é o tal do etanol de segunda geração, muito mais eficiente. No entanto, um estudo realizado pelo o físico José Goldemberg, ex-ministro da ciência e tecnologia e hoje professor e pesquisador da Universidade de São Paulo, mostra que ainda há muito espaço para crescer com a atual tecnologia empregada pelas usinas brasileiras.
Goldemberg sentiu a necessidade de examinar o tema ao constatar que existe um grande movimento nos Estados Unidos e na Europa a favor de investimentos na tecnologia de segunda geração, ou a busca pelo chamado etanol celulósico. Neste caso, o combustível é produzido a partir da celulose, que, ao invés da cana ou do milho, pode vir de inúmeras fontes - de cascas de árvores, resíduos vegetais e capim, a pneus e lixo urbano. “Os americanos estão excitados pela tecnologia de segunda geração porque não têm cana-de-açúcar nos EUA. Querem mostrar que a tecnologia atual não tem futuro”, explica o professor.
Ele destaca que mesmo no Brasil, os investimentos em busca do etanol celulósico já consomem entre R$50 e R$100 milhões por ano em pesquisas, enquanto os valores investidos só nos Estados Unidos atingem centenas de milhões de dólares. Goldemberg defende que a chegada do etanol de segunda geração não decretará o fim da tecnologia existente, como alguns imaginam. “Há muita área no mundo que poderia aumentar a plantação de cana, assim como países que hoje praticamente só produzem açúcar, como África do Sul e Colômbia, que poderiam se voltar também para o etanol”, sugere o professor.
A cana produz biocombustível e gera alimentos – o sucesso do etanol despertou a ira de seus concorrentes, e passou a correr o mundo a notícia de que a cana rouba espaço dos alimentos. Apresentamos dois exemplos de que se pode produzir cana e cereais na mesma área. Desde a década de 80, os produtores de cana da região de Ribeirão Preto optaram pelo amendoim como opção de rotação de cultura na época de renovação dos canaviais. Quando o preço do amendoim está bom, o lucro cobre os custos de implantação do canavial, ou no mínimo a redução de custos é de 30%.
Segundo Denizart Bolonhezi, engenheiro agrônomo e pesquisador do Pólo Regional do Centro Leste coordenado pela Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), essa prática permite a melhoria da fertilidade do solo, por meio do fornecimento de nitrogênio para cana seguinte; redução da população de nematóides; diversificação da renda do agricultor; e o auxílio no controle de plantas daninhas na cana seguinte.
Na região de Ribeirão Preto o amendoim ocupa aproximadamente uma extensão de 40 mil hectares, e apenas é cultivado em áreas de renovação de cana, a cada ano, aproximadamente 20% dos canaviais são renovados. A região é responsável por 40% da produção nacional de amendoim, o Estado de São Paulo é o maior produtor do Brasil e este ano a produção foi superior a 5 milhões de sacas (25 kg).
Feijão Doce – na mesma região, pesquisadores e produtores investem na prática de cereais, mais especificamente feijão, nas entrelinhas da cana. O projeto chama-se Feijão Doce, e utiliza a variedade IAC Alvorada.
O experimento pioneiro iniciou em agosto de 2008 em parceria com o proprietário José Luiz Balardim, na Fazenda São José, em Barrinha, SP, e tem apresentado resultados preliminares aceitáveis. O feijão é plantado na entrelinha da cana e tem um ciclo de 90 dias. De acordo com o pesquisador Denizart, o projeto objetiva analisar o desempenho das lavouras e fornecer dados para os canavicultores que desejam iniciar a produção em consórcio em suas propriedades.
Benefícios – de acordo com o engenheiro agrônomo e também pesquisador do Pólo Regional do Centro Leste/APTA, José Roberto Scarpellini, esse cultivo pode trazer vários benefícios. “Acrescenta nitrogênio naturalmente na cultura da cana, o preço é vantajoso e utiliza melhor a área”, esclarece. A cultura que está sendo testada em canavial de três cortes foi plantada em área irrigada, no sistema de plantio direto sobre palhada de cana crua, pois dispensa técnicas de revolvimento do solo.
O pesquisador Denizart informa que a meta do projeto é transformar essa região produtora de cana em também produtora de alimentos. “O ‘Feijão Doce’ prevê o cultivo do alimento em meio aos canaviais em crescimento. Uma prova de que é possível produzir etanol e na mesma área alimentos, assim combatemos as críticas internacionais”, observa.